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03.02 0
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“Na Pressão” por Arnaldo Antunes

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E não é que ele conseguiu? Depois de um disco tão impressionante como O Dia Em Que Faremos Contato, Lenine vem agora com essa barbaridade (no bom e novo sentido) que é Na Pressão. No alto e bom som. Como se, contato feito, ele prosseguisse viagem rumo à síntese; a uma definição maior de sua linguagem, que confirma e ao mesmo tempo vai além. Aprimora. A combinação acústica eletrônica (violão, percussão + sampler, programação) continua gerando frutos originais, surpreendentes. O swing com peso. Os arranjos-colagens, onde os sons gravados entram e saem na edição, mudando a cada momento as texturas e as relações de espaço, sem romper o transe. A profundidade – música em 3 dimensões. Sons ao longe e sons que batem de frente na testa. Não só por sua colocação na mixagem, mas principalmente pelos timbres trabalhados. Alguns massa compacta, de socar com a mão. Outros zumbindo em torno da cabeça. E outros ainda vindo por detrás, empurrando as per-nas, terremoto obrigando a dançar. Etc e tanto. Se no disco anterior tínhamos A Ponte, liga-ção entre dois pontos; temos agora A Rede, onde os pontos e conexões se multiplicam. A junção, num mesmo signo, desses dois universos – o artesanal (rede de balançar, rede de pescar) e o cibernético (rede de transmitir informação) – “meu tao e meu tão” -, expressa muito do princípio criativo de Lenine. “Natural análogico e digital”. “Astronauta Tupi” na aldeia global. Também em forma de “rede” se desenvolvem algumas letras de Na Pressão, com o entrelaçamento sonoro das palavras desdobrando relações de sentido. Principalmente nas duas únicas assinadas pelo próprio LenineJack Soul Brasileiro (“…do tempero e do batuque / do truque do picadeiro / do pandeiro e do repique / do pique do funk – rock / do toque da platinela…”) e Meu Amanhã (intuindo o Til) (“minha meta, minha metade / minha seta, minha saudade / minha diva, meu divã / minha manha, meu amanhã”), onde é inevitá-vel, com a sugestão composta pelas rimas em ã e e pelo desenho melódico característico, a lembrança do nome de Djavan. Oswald de Andrade, em A crise da Filosofia Messiânica, espécie de versão filosófica da Antropofagia, expõe o que acredita ser “a formulação essen-cial do homem como problema e como realidade”: “1° termo: tese – o homem natural / 2° termo: antítese – o homem civilizado / 3° termo: síntese – o homem natural tecnizado”. A resultante dessa equação pode caracterizar bem o som de Lenine que, assim como Chico Science, mas de maneira muito própria, conjuga essas pontas (“pontes”) – raízes e antenas. A zabumba e a programação de ritmo. Modernidade radical relendo a tradição. Alta tecno-logia em prol da pulsão mais primitiva. Em 1977, Caetano Veloso citou, numa entrevista ao extinto tablóide Aqui São Paulo, uma declaração de José Agrippino de Paula, em que este dizia: “Ah, o Oswald de Andrade já disse tudo! Agora a gente precisa viver o que ele disse.”

Eu acho curiosamente reveladora essa colocação, porque é exatamente isso que parece ter sido feito pela Tropicália, em relação à Antropofagia. Muitas coisas se apresentavam como projeto na visão de Oswald foram digeridas e viraram ação, processo, atitude, quarenta anos depois, com o movimento tropicalista. Caetano chegou a declarar, na época (em conversa com Augusto de Campos, registrada em O Balanço da Bossa e Outras Bossas): “o Tropica-lismo é um neo-Antropofagismo”. Algo semelhante vem ocorrendo com essa rapaziada dos anos 90 (Lenine, Chico Science e Nação Zumbi, Carlinhos Brown, Mundo Livre S.A, Otto, O Rappa, Pedro Luís e a Parede, entre outros). A ruptura dos limites entre gêneros e repertó-rios transformada em vida. O trânsito livre entre as diferenças instituido como uma realida-de cultural, a partir da qual se cria. (Jorge Benjor, com a mais genuína fusão de samba e rock, e Os Novos Baianos, nos anos 70; Os Paralamas do Sucesso, nos anos 80; entre outras coisas, já apontavam para essa incorporação orgânica da diversidade). Se Caetano cantou, no futuro da terceria pessoa: “Um índio descerá de uma estrela colorida brilhante”, Lenine o cita agora (em parceria com Carlos Renó), cantando, no presente da primeira pessoa: “Sou o índio da estrela veloz e brilhante”Tubi Tupy, que aponta também para o Manifesto An-tropófago (Tupi or not tupi that is the question), em seu título. Uma tradição potente pede uma atitude potente frente a ela. É sintomático desse contexto, o fato de Lenine abrir Na Pressão com Jack Soul Brasileiro, sua homenagem a Jackson do Pandeiro. Ao pegar como ícone aquele “que fez o samba embolar / que fez o coco sambar”, que fez a gafieira virar um forró, que misturou chiclete com banana (cultura de exportação, vide Oswald), ele esclarece logo de cara que sua intenção trafega num território mestiço. E é com traços de samba coco funk maracatu embolada rock balada rap repente baião, filtrados num caldeirão muito pes-soal (quem mais poderia ter a brutalidade tão particular da sua pegada no violão, peso com swing?), que Lenine vai elaborar o seu caldo. Está tudo lá. Os barulhos dos trabalhadores na obra. O acordeão de Dominguinhos. Os carros na rua. A profusão de ritmos nas mãos de Marcos Suzano e Naná Vasconcelos. O gemido do balanço da rede. Os baixos, guitarras, rugidos, e distorções do produtor Tom Capone. A sandália havaiana riscando a areia da pista arrasta tecno. O coro dos Raimundos. O samba em Tel-Aviv. O ronco da máquina. Pedro Luís e a Parede. A rabeca de Siba. O gemido da ema. A Banda de Pife de Caruaru. O apito da panela de pressão. Etc e tão. Ouvi-lo dá vontade de fazer música, como todas as coisas boas do ramo. Dançá-lo lhe faz jus.

 Arnaldo Antunes

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