Tá cansada senta
Se acredita tenta
Se tá frio esquenta
Se tá fora entra
Se pediu aguenta
Se sujou cai fora
Se dá pé namora
Tá doendo chora
Tá caindo escora
Não tá bom melhora
Se aperta grite
Se tá chato agite
Se não tem credite
Se foi falta apite
Se não é imite
Se é do mato amanse
Trabalhou descanse
Se tem festa dance
Se tá longe alcance
Use sua chance
Se tá puto quebre
Tá feliz requebre
Se venceu celebre
Se tá velho alquebre
E corra atrás da lebre
Se perdeu procure
Se é seu segure
Se tá mal se cure
Se é verdade jure
Quer saber apure
Se sobrou congele
Se não vai cancele
Se é inocente apele
Escravo se rebele
Nunca se atropele
Se escreveu remeta
Engrossou se meta
Quer dever prometa
Pra moldar derreta
E não se submeta

Lenine – Voz e Violão
Yusa – Baixo e Vocal
Ramiro Mussoto – Percussão

Gravado ao vivo no Cité de La Musique nos dias 29 e 30 de abril de 2004 – Paris

Produzido por Lenine – Direção artística: Lenine – Concepção: Anna Barroso e Lenine

Coordenação de projeto: Marcia Días – Produção executiva: Andrea Comodo

Produção de base: Luciana Campos – Assistente de produção: Zezé Cortes

Produção França: Fréderic Gluzman – Unidade móvel de gravação: Le Voyager

Engenheiro de gravação: Alvaro Alencar – Assistente de gravação: Céline Genevrey

Mixado por Tom Capone e Alvaro Alencar na Toca do Bandido

Assistente de mixagem: Fernando Rebelo – Masterizado no Magic Master por Ricardo Garcia

Assistente de Masterização: Sergio Chataignier – Projeto gráfico: Arcos Comunicação – Designer: Sonaly Macêdo
Fotos Dalton Valério – Assessoria de imprensa: Mario Canivello

Show | Direção de arte: Lia Renha – Desenho de luz: Lucio Kodato – Figurino: Cristina Kangussu
Engenheiro de som: Denílson Campos – Técnico de monitor: Rogério Andrade
Iluminador: Robson Marques de Cassia – Roadie: Berg – Direção de palco: Anja Klockner
Management – Mameluco Produções e Edições Musicais

Precário, provisório, perecível,
Falível, transitório, transitivo,
Efêmero, fugaz e passageiro:
Eis aqui um vivo!
Impuro, imperfeito, impermanente,
Incerto, incompleto, inconstante,
Instável, variável, defectivo:
Eis aqui um vivo!
E apesar –
Do tráfico, do tráfego equívoco,
Do tóxico do trânsito nocivo;
Da droga do indigesto digestivo;
Do câncer vir do cerne do ser vivo;
Da mente, o mal do ente coletivo;
Do sangue, o mal do soropositivo;
E apesar dessas e outras,
O vivo afirma, firme, afirmativo:
“O que mais vale a pena é estar vivo.”
Não feito, não perfeito, não completo,
Não satisfeito nunca, não contente,
Não acabado, não definitivo:
Eis aqui um vivo!
Eis-me aqui.

Malucos e donas de casa
Vocês aí na porta do bar
Os cães sem dono, os boiadeiros.
As putas, babalorixás.
Os gênios, os caminhoneiros.
Os sem terra e sem teto
Atores, maestros, djs.
Os undergrounds, os megastars.
Os Rolling Stones e o rei
Ninguém faz ideia de quem vem lá…
Ciganas e neo-nazistas
O bruxo, o mago, o pajé.
Os escritores de sciense fiction
Quem diz e quem nega o que é
Os que fazem greve de fome
Bandidos, cientistas do espaço.
Prêmios Nobel da paz
O Dalai lama, o Mr. Bean
Burros, intelectuais. Pensei:
Ninguém faz ideia de quem vem lá…
Os líderes de última hora
Os que são a bola da vez
Os encanados, os divertidos.
Os tais que traficam bebês
O que bebe e passa da conta
Os do cyberespaço
A capa do mês da Playboy
O novo membro da academia
O mito que se auto-destrói. Eu sei:
Ninguém faz ideia de quem vem lá…
Os duros, os desclassificados
A vanguarda e quem fica pra trás
Os dorme-sujo, os emergentes.
Os espiões industriais
Os que catam restos de feira
Milicos, piratas da rede.
Crianças excepcionais
Os exilados, os executivos.
Os clones, os originais. É a lei:
Ninguém faz ideia de quem vem lá…
Os anjos, os exterminadores
Os velhos jogando bilhar
O Vaticano, a cia.
O boy que controla o radar
Anarquistas e mercenários
Quem é e quem fabrica notícia
Quem crê na reencarnação
Os clandestinos, os ilegais.
Os gays, o chefe da nação.
Ninguém faz ideia de quem vem lá…

Eu já me perguntei, se o tempo poderá
Realizar meus sonhos e desejos.
Será que eu já nem sei por onde procurar,
Ou todos os caminhos dão no mesmo?
O certo é que não sei o que virá,
Só posso te pedir…
Nunca se leve tão a sério,
Nunca se deixe levar.
A vida é parte do mistério,
E é tanta coisa pra se desvendar.
Por tudo que eu andei, e o tanto que faltar,
Não dá pra se prever nenhum futuro.
O escuro que se vê, quem sabe pode iluminar,
Os corações perdidos sobre o muro.
O certo é que não sei o que virá,
Só posso te pedir…
Nunca…

O verbo saiu com os amigos
Pra bater um papo na esquina,
A verba pagava as despesas,
Porque ela era tudo o que ele tinha.
O verbo não soube explicar depois,
Porque foi que a verba sumiu.
Nos braços de outras palavras
O verbo afogou sua mágoa, e dormiu.
O verbo gastou saliva,
De tanto falar para o nada.
A verba era fria e calada,
Mas ele sabia, lhe dava valor.
O verbo tentou se matar em silêncio,
E depois quando a verba chegou,
Era tarde demais
O cadáver jazia,
A verba caiu aos seus pés a chorar
Lágrimas de hipocrisia.
Rosebud
Dolores e dólares

Cadê a esfinge de pedra que ficava aqui?
Virou areia, virou areia.
Cadê a floresta que o mar já avistou dali?
Virou areia, virou areia.
Cadê a mulher que esperava o pescador?
Virou areia.
Cadê o castelo onde um dia já dormiu um rei?
Virou areia, virou areia.
E o livro onde o dedo de deus deixou escrita a lei?
Virou areia, virou areia,
cadê o sudário do salvador?
Virou areia.
Areia…
A lua batendo no chão do terreiro…
O barro batido subindo no ar…
Menino sentado na beira da praia…
Fazendo com a mão um castelo no mar…
A onda que se ergueu e que passou
Virou areia…
Cresceu no mar e na terra se acabou,v virou areia…
Cadê a voz que encantava a multidão?
Virou areia, virou areia.
Cadê o passado, o presente e a paixão?
Virou areia, virou areia.
Cadê a muralha do imperador?
Virou areia.

(Lenine / Paulinho Moska)
Todo dia é dia, toda hora é hora,
Neném não demora pra se levantar,
Mãe lavando roupa, pai já foi embora
E o caçula chora para se acostumar
Com a vida lá de fora do barraco,
Hai que endurecer um coração tão fraco,
Para vencer o medo do trovão,
Sua vida aponta a contra-mão.
Tá relampiano, cadê neném?
Tá vendendo drops no sinal pra alguém
Tá relampiano, cadê neném?
Tá vendendo drops no sinal pra alguém,
tá vendendo drops no sinal…
Tudo é tão normal, todo tal e qual,
Neném não tem hora pra ir se deitar,
Mãe passando roupa do pai de agora,
De um outro caçula que ainda vai chegar,
É mais uma boca dentro do barraco,
Mais um quilo de farinha do mesmo saco,
Para alimentar um novo João ninguém,
E cidade cresce junto com neném

Não canto mais Bebete nem Domingas
Nem Xica nem Tereza, de Ben Jor;
Nem Drão nem Flora, do baiano Gil;
Não canto mais Luiza, do maior;
Já não homenageio Januária,
Joana, Ana, Bárbara, de Chico;
Nem Yoko, a nipônica de Lennon;
Nem a cabocla, de Tinoco e de Tonico;
Nem a tigreza nem a vera gata
Nem a branquinha, de Caetano;
Nem mesmo a linda flor de Luiz Gonzaga,
Rosinha, do sertão pernambucano;
Nem Risoflora, a flor de Chico Science –
Nenhuma continua nos meus planos.
Nem Kátia Flávia, de Fausto Fawcett;
Nem Anna Júlia, do Los Hermanos.
Só você, hoje eu canto só você;
Só você,
Que eu quero porque quero, por querer.
Não canto de Melô pérola negra;
De Brown e Herbert, uma brasileira;
De Ari, nem a baiana nem Maria,
Nem a Iaiá também, nem a faceira;
De Dorival, nem Dora nem Marina
Nem a morena de Itapoã;
De Vina, a garota de Ipanema;
Nem Iracema, de Adoniran.
De Jackson do Pandeiro, nem Cremilda;
De Michael Jackson, nem a Billie Jean;
De Jimi Hendrix, nem a doce Angel;
Nem Ângela nem Lígia, de Jobim;
Nem Lia, Lily Braun nem Beatriz,
Das doze deusas de Edu e Chico;
Até das trinta Leilas de Donato,
E da Layla, de Clapton, eu abdico.
Só você,
Canto e toco só você;
Só você,
Que nem você ninguém mais pode haver.
Nem a namoradinha de um amigo
E nem a amada amante de Roberto;
E nem Michelle-ma-belle, do beatle Paul;
Nem Isabel – Bebel – de João Gilberto;
E nem B.B., la femme de Serge Gainsbourg;
Nem, de Totó, na malafemmená;
Nem a iaiá de Zeca Pagodinho;
Nem a mulata mulatinha de Lalá;
E nem a carioca de Vinicius
E nem a tropicana de Alceu
E nem a escurinha de Geraldo
E nem a pastorinha de Noel
E nem a namorada de Carlinhos
E nem a superstar do Tremendão
E nem a malaguenha de Lecuona
E nem a popozuda do Tigrão
Só você,
Elejo e elogio só você,
Só você,
Que nem você não há nem quem nem quê.
De Haroldo Lobo com Wilson Batista,
De Mário Lago e Ataulfo Alves,
Não canto nem Emília nem Amélia:
Nenhuma tem meus vivas! E meus salves!
E nem Angie, do stone Mick Jagger;
E nem Roxanne, de Sting, do Police;
E nem a mina do mamona Dinho
E nem as mina – pá! – do mano Xis!
Loira de Hervê e loira do É O Tchan,
Lôra de gabriel, o Pensador;
Laura de Mercer, Laura de Braguinha,
Laura de Daniel, o Trovador;
Ana do Rei e Ana de Djavan,
Ana do outro rei, o do baião:
Nenhuma delas hoje cantarei:
Só outra reina no meu coração.
Só você,
Rainha aqui só você,
Só você,
A musa dentre as musas de a a z.
Se um dia me surgisse uma dessas
Moças que, com seus dotes e seus dons,
Inspiram parte dos compositores
Na arte das palavras e dos sons,
Tal como Madelleine, de Jacques Brel,
Ou como Madalena, de Martinho;
Ou Mabellene e a Sixteen de Chuck Berry,
E a manequim do tímido Paulinho;
Ou como, de Caymmi, a moça Rosa
E a musa inspiradora Doralice;
Se me surgisse apenas uma dessas,
Confesso que eu talvez não resistisse;
Mas, veja bem, meu bem, minha querida:
Isso seria só por uma vez,
Uma vez só em toda a minha vida!
Ou talvez duas… Mas não mais que três…
Só você…
Mais que tudo é só você;
Só você…
As coisas mais queridas você é:
Você pra mim é o sol da minha noite;
É como a rosa, luz de Pixinguinha;
É como a estrela pura aparecida,
A estrela a refulgir, do Poetinha;
Você, ó flor, é como a nuvem calma
No céu da alma de luiz vieira;
Você é como a luz do sol da vida
De Stevie Wonder, ó minha parceira.
Você é para mim e o meu amor,
Crescendo como mato em campos vastos,
Mais que a gatinha para Erasmo Carlos;
Mais que a cigana pra Ronaldo Bastos;
Mais que a divina dama pra Cartola;
Que a domna para Ventadorn, Bernart;
Que a honey baby para Waly Xalomão
E a funny valentine pra Lorenz Hart.
Só você,
Mais que tudo e todas, só você;
Só você,
Que é todas elas juntas num só ser.

Andei pra chegar tão longe,
E daqui de longe eu olhei pra trás.
E foi como ver distante
Eu atravessando os meus temporais.
Ouvi anna me chamando,
Disse se eu não fosse, eu não ia mais.
Eu vi o que a gente fez
Pra chegar aqui no que a gente faz.
Eu e anna, anna e eu.
Sonhei muito diferente
Eu bati de frente, e corri atrás.
E foi como se eu soubesse
Inverter o tempo, e arriscar bem mais.
Eu vi que era o meu destino,
Eu me vi menino em outros que fiz.
Andei pra chegar mais longe
E de lá de longe me ver feliz.
Andei pra valer a pena,
Olhei pra trás, pro que é meu.
Nosso passado me acena,
Pelo que foi, já valeu!

Lá…
Onde o mar
bebe o capibaribe.
Coroado leão,
caribenha nação,
longe do caribe.
Tuarengue Nagô
(Lenine / Bráulio Tavares)
É a festa dos negros coroados
Num batuque que abala o firmamento;
É a sombra dos séculos guardados
É o rosto do girassol dos ventos.
É a chuva, o roncar de cachoeiras
Na floresta onde o tempo toma impulso:
É a força que doma a terra inteira
As bandeiras de fogo do crepúsculo.
Quando o grego cruzou Gibraltar
Onde o negro também navegou,
Beduíno partiu de Dacar
E o viking no mar se atirou
Uma ilha no meio do mar
Era a rota do navegador;
Fortaleza, taberna e pomar
Num país tuaregue e nagô…
É o brilho dos trilhos que suportam
O gemido de mil canaviais;
Estandarte em veludo e pedrarias
Batuqueiro, coração dos carnavais
É o frevo, a jogar pernas e braços
No alarido de um povo a se inventar;
É o conjunto de ritos e mistérios
É um vulto ancestral de além-mar.
Quando o grego cruzou Gibraltar
Onde o negro também navegou,
Beduíno partiu de Dacar
E o viking no mar se atirou.
Era o porto para quem procurava
O paõs onde o sol vai se pôr
e o seu povo no céu batizava
as estrelas ao sul do Equador.

Quem liberta o furacão?
Desamarra o mar da praia?
Desarruma o rumo, entorta o prumo,
erra sem destino, amor?
Quem desata o céu da terra,
desfere a flecha, rasga o ar?
Tira a luz da treva, razão aterra,
erra, desatina, amor?
Quem move o mundo todo apenas sendo
Sentimental
Quem me tira o chão dos pés?
E movimenta as marés, quem
semeia o pé de vento do pensamento,
erra sem destino, amor?
Desintegra o grão na terra,
desagrega o coração,
tira o véu dos olhos,
desperta os poros,
erra, desatina, amor?
Quem move o mundo apenas sendo
Sentimental
Quem desarrazoa, quem
Abraça o raio, arrasta o rio, quem
Avassala o medo, repete o erro,
Erra sem destino, amor?
Faz qualquer coisa de mim,
Quebra a pedra com seu sim,
Arrepia o pelo,
Derrete o gelo,
Erra, desatina, amor?
Quem move o mundo todo sendo
Sentimental

Pelos alto-falantes do universo
Vou louvar-vos aqui na minha loa
Um trabalho que fiz noutro planeta
Onde nave flutua e disco voa:
Fiz meu marco no solo marciano
Num deserto vermelho sem garoa.
Bem na praça central um monumento
Embeleza meu marco marciano,
Um granito em enigma recortado
Pelos rudes martelos de vulcano;
Uma esfinge em perfil contra o poente
Guardiã imortal do meu arcano.

Sob o mesmo céu
Cada cidade é uma aldeia,
Uma pessoa,
Um sonho, uma nação
Sob o mesmo céu,
Meu coração não tem fronteiras,
Nem relógio, nem bandeira,
Só o ritmo de uma canção maior
A gente vem do tambor do índio
A gente vem de Portugal
Vem do batuque negro
A gente vem do interior, da capital
A gente vem do fundo da floresta
Da selva urbana dos arranhacéus,
A gente vem do pampa, vem do cerrado,
Vem da megalópole, vem do pantanal,
A gente vem do trem,
Vem de galope,
De navio, de avião, motocicleta,
A gente vem a nado,
A gente vem do samba, do forró,
A gente vem do futuro conhecer nosso passado.
Brasil
Com quantos Brasis se faz o Brasil?
Com quantos Brasis se faz um país?
Chamado Brasil
A gente vem do rap, da favela,
A gente vem do centro, e da periferia
A gente vem da maré, da palafita,
Vem dos Orixás da Bahia
A gente traz um desejo de alegria e de paz,
E digo mais
A gente tem a honra de estar ao seu lado,
A gente veio do futuro conhecer nosso passado
Brasil
Com quantos Brasis se faz o Brasil?
Com quantos Brasis se faz um país?
Chamado Brasil