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EM TRÂNSITO: O TOM É GRAVE; O TEMPO É BREVE

De Onde Vem a Canção?

Em sua nova construção, Em Trânsito, Lenine ressignifica a pergunta retórica formulada originalmente em Chão (2011). Ressignifica, sim, pois estando em novas circunstâncias passa a ser uma nova pergunta – o tal “sempre outro rio a passar” que Heráclito ensinou a Quintana*. E talvez seja sua própria resposta: canção é processo, vem de muitos ondes, vai para outros tantos.

Em Trânsito é uma ode ao processo. Não à toa, subverte a ordem que se nos impuseram (disco de estúdio / show / disco ao vivo). Tudo do avesso porque é tudo processo. É livre de obrigações, desemoldurado. Lenine enxerga que O Dia em Que Faremos Contato (1997), Na Pressão (1999) e Falange Canibal (2002) constituem uma primeira trilogia, em que o conceito dos discos é uma amarração feita a posteriori, a partir do conjunto das canções que ele já compusera até então; já Labiata (2008), Chão e Carbono (2015) são uma segunda trilogia, em que novas canções foram criadas para álbuns cujos conceitos foram imaginados a priori. Em Trânsito seria o que, então, senão a fusão das duas coisas – justamente aquilo que não vem antes e nem depois?

O resultado é um repertório de canções que soam novas – sejam elas inéditas ou não. Que Baque É Esse? É o baque do maracatu de bombo fofo, rasgado pelo sax de Carlos Malta, ou é o baque da Intolerância, parceria nova com Ivan Santos que também é costurada por Malta? Seria o baque da desilusão dos nossos sonhos luminosos de nação, como previu com Carlos Rennó em Ecos do Ão, ou o baque da metrópole que nos atropela e nos expulsa, imaginado com Bráulio Tavares em Lá Vem a Cidade? Ninguém Faz Ideia. O baque talvez seja o próprio devir*, a transformação como certeza única. O que não Virou Areia ainda há de virar, seja o rei ou o pirata de Lá e Lô; seja o índio da estrela veloz e brilhante de Tubi Tupy ou a própria estrela, o sol mais distante observado com Arnaldo Antunes em O Céu É Muito.

Além de perene, o processo é coletivo: o Lenine de Castanho, canção em parceria com Carlos Posada, não chegou sozinho. Ao mostrar as canções inéditas (como Bicho Saudade, em parceria com João Cavalcanti) para a banda, o violão foi dispensado. Melodias e letras, cruas, para que os resultados fossem decifrados em conjunto com Jr. Tostoi, Guila, Pantico Rocha e Bruno Giorgi. Bruno ainda assina a direção musical, sendo mola essencial dessa engrenagem-organismo. A assinatura da banda é clarividente, consequência da intimidade conquistada por muitos anos de labuta criativa.

Mas há outras sonoridades, como a delicadeza da ciranda Lua Candeia, feita com Paulo César Pinheiro, que ganha ares camerísticos pelas mãos do pianista Amaro Freitas. O parentesco com Ciranda Praieira, da mesma parceria e de semelhante temática, quase não se nota – exatamente pelo que a banda imprime a essa ciranda-dub, gravada originalmente em Labiata. Em Leve e Suave, canção inédita que abre Em Trânsito, Lenine, sozinho em cena, fala de afeto e leveza. Isso só reforça a ironia fina de Umbigo, onde os descaminhos do ego são postos nus sob os gritos distorcidos da guitarra de Gabriel Ventura, que deixa o posto de roadie para integrar a banda. A atmosfera mais surpreendente é a da inédita Ogan Erê, parceria com Lula Queiroga, onde o ponto é montado a partir da superposição de sons feitos com a voz, cama sobre a qual Lenine (com vocal de Bruno) conta como a ancestralidade dos terreiros se transmite desde a infância.

Com patrocínio da Petrobras e do Governo Federal, Em Trânsito é, portanto, o que o próprio nome sugere. É o mar de escolhas que Lenine fez para manter-se atento ao caminho, mesmo sem saber o destino. É o artista recusando-se a ceder à inércia – Eu Sou Meu Guia e o movimento É o Que Me Interessa (música feita com Dudu Falcão). É a iluminação acentuada nas penumbras e contrastes, desenhada por Robson de Cássia e conectada com o meio e o tempo onde foi concebida. É o uso sem pudores de periféricos analógicos na captação do áudio, feita por Diogo Guedes e Elton Bozza, para gerar verdade no durante. É uma arte gráfica, assinada por Bruno Tavares e Lisa Akerman, igualmente analógica: feita em cianótipo, processo químico de impressão que antecedeu a fotografia moderna, mostra muitos símbolos processuais, como o neurônio, a raiz, o relâmpago – a analogia está na forma e no conteúdo. É, por fim, a deflagração do ímpeto, como descrita na inédita Sublinhe e Revele.

Porque o tom é grave e o tempo é breve.
Por João Cavalcanti

* Diz Mário Quintana em Canção do Dia de Sempre “Nunca dês um nome a um rio: Sempre é outro rio a passar. Nada jamais continua, tudo vai recomeçar!” Quintana parece repercutir Heráclito de Éfeso, filósofo pré-socrático que postulou o conceito de devir, através de frases como “Tudo flui e nada permanece”, “Não há nada permanente, exceto a mudança” e “Nenhuma pessoa pode pôr os pés duas vezes no mesmo rio, pois o rio já é outro e a pessoa já é outra”. Devir, segundo o Houaiss, é o “fluxo permanente, movimento ininterrupto, atuante como uma lei geral do universo, que dissolve, cria e transforma todas as realidades existentes”.

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